10.27.2010

Ser rio

Nos trémulos lençóis maduros da cama
O rio desceu corado pelos teus cabelos
Dançou com os seios lambendo as rochas
Tomou-as de frente no colo uma a uma
E arderam na carne serena da orquídea
Comeu a sofreguidão e o medo da vida
Em cachos de sorrisos salpicados de uvas
Cantou a canção nas asas de uma garça
Por entre dores do sol nas mãos paridas
Abandonou-se nos fios de uma guitarra
E abraçou multidões nas margens de terra
E os olhos ardiam-me em estrelas cadentes
E o meu coração na tua doce boca chorava
Em doces jardins verdes de saliva e pássaros
E dentes dedilhando-me em anjos nas alturas
Em luas por cima do céu em ruínas com flores
No candelabro do mel dos teus olhos astrais
Sou-te barco na armadilha das faces límpidas
Enredado em fios sussurrantes de cardumes
Morro na folhagem dos teus ombros ancestrais
E perco-me na linguagem fresca de quem sou
O sonho quente no sangue crente de alguém
Antes que mar se me acenda por todo o corpo
Em torrões de açúcar de línguas de espuma
E renasça em girassóis dentro da tua placenta
E me leve fragmentado ao teu altar do mundo!



manuel feliciano

10.26.2010

Ausência de mim

As minhas mãos fechadas dentro de uma gaveta
Os meus pés jogados numa fisga para o céu
O meu corpo a ranger num plátano velho
Não são o limite das flores varridas pela brisa
O meu pensamento arde longe desta sombra
Fragmento-me num comboio de orvalho onde te levo
Deixo o cálice dos meus olhos a entornar para dentro
Sem sequer tragar o sol da matéria venenosa
Bebo das imagens que não sucumbem ao sal da vida
Cinzelo Vénus no mármore quente da nuvem
Orquestro a música na plumagem rubra dos astros
Deixo que rio bata as asas nas folhas secas do silêncio
E colho em vozes ausentes frutos com que faço a casa.



manuel feliciano

10.25.2010

Maçã do amor

Toma esta maçã madura amor
Por dentro da sua polpa
Estão os beijos das tuas pálpebras
Enlaçadas às minhas
Quando te olhei o rosto à janela
Pela primeira vez na floresta virgem
Dos meus olhos acorrentados
Ao teu peito debruçado
A arder-me nas têmporas
Os lábios sôfregos pelas ondas
A amaciar a pele das rochas
Como me ardia a água do teu vestido
Nos astros tumefactos da garganta
Tu na bicicleta a entrares por mim adentro
As carícias dos abraços no lume das estrelas
Com as raízes na terra e o pensamento no mar
Toma esta maçã madura amor
E partilha-a com a minha boca
Como se ainda esteja a nascer para a árvore
E reguemos as raízes com a saliva da memória
E despe-me como quem me cobre junto a ti.


manuel feliciano

10.24.2010

Pseudo modernidade

Uma galinha com as patas sujas no charco
Come entontecida e cacareja ao som do milho
E os dias correm-lhe como um rio sossegado
Mas a sua alma não tem umbrais esfomeados
Pelas pegadas que o mar rouba sobre a areia
Nem vacas de nuvens que pastam nas alturas
Ou rochas do mar onde se ergue uma sereia
O nevoeiro que o sol desata numa gaivota
A consciência tocando as cordas dos músculos
A bomba moribunda desactivada com beijos
A lágrima salgada desaguando em bons ombros
E a fome ceifada nos ventres por todos os covardes
Porém, não conhecem a gástrica flor da hipocrisia
Nem a sofisticação viril da pseudo modernidade
Nas galerias da estupidez do ódio e da maldade
De homens que têm mãos e continuam amputados.


manuel feliciano

10.23.2010

À Actriz Carla Bolito























A actriz Carla Bolito em palco, prima por um carácter firme e autêntico, com a genialidade dos seus movimentos corporais, desprende-se completamente de si e empresta a sua genialidade ao que se chama arte, com uma voz sem mácula e cristalina, de repente o seu corpo ilumina-se e trasmuta-se numa das várias personagens que esconde dentro de si, eu diria na minha óptica estética de espectador, que a considero uma das melhores actrizes da actualidade portuguesa, a quem Portugal deve estar atento, uma verdadeira fera a representar, quer no cinema, quer no teatro.

Aconselho-vos, que por onde quer, que esta estrela brilhe, é digna dos mais fortes aplausos!


manuel feliciano


Carla Bolito (Moçambique, 1973), é uma actriz portuguesa.

[editar] Carreira
Integrou o Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC). Cursou Formação de Actores no Instituto Franco-Português e Instituto de Ficção, Investigação e Criação Teatral (IFICT). Trabalhou como actriz residente no Teatro O Bando sob a direcção de João Brites, Raúl Atalaia e Horácio Manuel. Posteriormente trabalhou com Ana Nave; José Peixoto; Lúcia Sigalho; Paulo Claro e Jorge Silva Melo (Artistas Unidos). Encenou Areena, em parceria com Rafaela Santos, no Centro Cultural de Belém; Teatro-Fantasma, com Cláudio da Silva, no Espaço Negócio da Galeria Zé dos Bois; Transfer, de que é autora (Ed. 101 Noites; 1ª Edição - Fevereiro de 2006).

Trabalhou em dança, tendo participado em coreografias de Olga Roriz e Clara Andermatt.

[editar] Cinema
No cinema trabalhou com os realizadores Joaquim Sapinho (Corte de Cabelo), Ivo Ferreira (O Que Foi?), Eduardo Guedes (Falando de Anjos), Teresa Villaverde (Água e Sal), Fernando Vendrell (O Gotejar da Luz, Pele e 14 de Fevereiro a 1 de Abril), Solveig Nordlund (Amanhã), Paulo Belém (W), Margarida Cardoso (A Costa dos Murmúrios). Deu a voz a um filme de Edgar Pêra.

[editar] Televisão
Para a televisão contou com participações pontuais, destacando os telefilmes Facas e Anjos, de Tiago Guedes; La Mort Est Rousse, de Christian Faure; 88, de Edgar Pêra; a série Bocage, de Fernando Vendrell.

Participou recentemente na série O Testamento para a RTP, onde interpretou o papel de Telma.

Foi premiada no Festival Internacional de Cinema de Locarno, como Melhor Interpretação Feminina do ano de 1995, com Corte de Cabelo, de Joaquim Sapinho.

Amor ausente

Meu amor, não foi o gelo que não nos aconchegou
Nem o fogo que nos arrefeceu
Temos uma brasa quente e húmida na garganta
Que nos liga aos braços bravos dos nossos oceanos
Os nossos olhos germinam mesmo nos galhos
Desfeitos da noite madura e quente
As minhas mãos desferem-te flechas de gritos
Lambendo o silêncio ausente do teu corpo astral
E os teus lábios desfeiteiam a múmia da existência
Colados aos meus sobejando a lava de estrelas
Almiscarados com chocolate e torrões de açúcar
Em beijos tragados num marulhar de hienas
Nos cálices refrescantes de flores rubras e alvas
Enquanto o nosso amor reluz na tosse cadavérica das rosas
Que me importa os bichos que mutilam a avenida
Dos meus sonhos abertos ao céu como uma borboleta
Que o sol tenha o sabor asqueroso das trevas
E a escuridão a claridade da língua singrando nas espáduas
Até às curvas húmidas dos meus dedos no som da água
Onde me perco na partitura da tua cavidade musical
Que importa que a podridão arboresça e dê frutos celestes
Eu amo-te toda com os pés frios nas pedras
Os teus olhos consomem-me e ferem-me como duas balas
E o meu corpo é um texto húmido em gotas de sangue
Onde a tua ausência se refunde nos meus dedos
Em ninho que uma ave na Primavera teceu na árvore
Ao fundo do meu umbigo trémulo no teu abrigo
E tu e eu no choco caloroso dos ovos por debaixo das asas
Mas minha querida e apaixonada na ausência de ti
Não há bisturi que corte a pele da minha essência
A morte semeia-me-te a palavra como o grão a ave no céu
Oh casco enferrujado de um navio num banco de areia!
À luz envenenada de uma estrela desmaiada
Oh anjos que tanto venerei sem corpo!
Oh deuses da minha voz em recuo sem respostas!
Altares floridos da minha espera sagrada por ti
Do meu Eu numa caixa de fósforos por arder
Que uma folha de Outono seca te traga amor
Quero-te quente aqui e agora basta-me de cerejas
Onde te como deliciosamente sentado na árvore
Nesta presença invisível de mim, onde te ouço Docemente!



manuel feliciano

10.20.2010

Quando eu te tenho

Quando eu te tenho
O mundo está à distância dos teus olhos
O mar que é grande cabe-nos nas mãos
Há glaciares que nos derretem nos beijos
As laranjeiras secas dão laranjas cheias de sumo
Tu és o Ouro e a prata que eu não tenho
O Inverno é frio mas amadurece
Os frutos alvos do teu rosto
O escuro é uma manhã tal como um rio desamarrado
Que quebra o som dos tijolos e dos escravos
E os deuses moram-nos tranquilamente sem cortinas
Os nossos cabelos são árvores no deserto
Nós apanhamos mesmo pêssegos nas nuvens
Sem necessidade alguma de os comermos
Quando eu te tenho
Basta-me a luz dos meus olhos na tua voz
O crepúsculo do teus pés na minha sombra
Somos ponte de saliva que não se desmancha
O universo é-nos só um pequeno ponto
Que nos teus dedos germina multidões
De grãos afectuosos na minha alma
A tua ausência é o reflexo de que me habitas.



manuel feliciano

Navio de letras

Vou por um navio de letras
Os bancos são bocas exangues
Os passageiros reticências
O destino não tem hora.

Abraços desencontrados
Como quem os aperta
Num mar imenso de pó
No umbral de uma casa
Sem porta que dê para fora.

Ouço a música dos pêssegos
Que nunca tocaram a quilha
Do concavo da boca
E souberam-me ao além
Pela bruna tão clara
Rezo de joelhos a uma pedra.

Não me queixo, para quê?
Atraco-me ao troco de uma figueira
A mesma que judas conhece
E faço dela uma prece
O Deus que tanto esperei
No cantinho dos teus olhos.


Enquanto o mundo for
O nada é multidões de gente
E eu sou um mero lastro
Fatias de uma melancia
E o meu coração ausente.

E sigo pelo mar de pedra
Eu sei lá o que é o mar
Sou ponto de interrogação
Pinheiro plantado no monte
Enquanto a viagem segue.


manuel feliciano

10.19.2010

Poeira nos olhos

Tu que vais pelo caminho sempre erguido
Mesmo se há fisgas apontadas ao teu peito
E os outros te obstruem o luar das pálpebras
E fazem disso o sangue que lhes dá a vida
Só por que os outros te destroem e são felizes
As mãos imensas no horizonte das palavras
Esmagam-te a voz com mãos dentro dos bolsos
Viram-te a cara como a sombra de um cadáver
Tu brotas água no deserto das suas almas
Abres os lábios e braços num bando de aves
Tens pão nos sonhos que fermentou na chuva
E um mar de estrelas fundeadas na esperança
Se os outros matam com a poeira nos olhos
De bolsos cheios morrem mesmo cheios de fome.



manuel feliciano

Music Box: POETRY SLAM NIGHT

Music Box:
POETRY SLAM NIGHT
Travessa do Carvalho nº24 ao Cais do Sodré
Por Alex Cortez
http://www.musicboxlisboa.com/

Para todos os jovens que gostam de presenciar poesia declamada pelos novos poetas da actualidade, numa noite que combina poesia música e encenação, que traz a palco vários artistas quer da música, quer do teatro, convido-vos a conhecer este novo espaço que a cidade de Lisboa vos concede pelas mãos de Alex Cortez e Janine.



Manuel Feliciano

(Em memória de Deus)

A Fernando Pessoa

(Em memória de Deus)


Senhor, de quem sou só sombra
De quem o sol é húmus
De quem a chuva é lua
De quem a neve é fogo
E a água uma ave na árvore
O mundo uma ferida na garganta
Na tua presença ausente
Faz com que tudo o que eu crie
Seja a tua consciência
Ligada à sensibilidade dos meus dedos
De um bom filho para um pai
Limpa-me a alma para que te sinta
No que em mim há de mais fértil
Os meus sonhos sejam matéria
E o meu pensamento marinheiros
E a espera não me doa
Com os pés dentro da lama
Dá lume por ventura aos meus passos
Para iluminar almas sem gente
Deixa-me ser pão em esfomeados
Ser-te servo é-me toda a liberdade!

manuel feliciano

10.18.2010

Cool_the best





Do álbum:
POÈSIE & LINGERIE por Alex Cortez

So lovely Night




Do álbum:
POÈSIE & LINGERIE por Alex Cortez

A beleza de um momento - Eu-Lisboa-o Mundo




Do álbum:
POÈSIE & LINGERIE por Alex Cortez

My beautifull Night-Lisboa




POÉSIE & LINGERIE (Carla Bolito, Inês
Jacques e Cláudia Efe) ao vivo na sexta 15 OUT @ Musicbox 'POETRY SLAM
NIGHT' !!!!!!

Eu estive Aqui - Poetry SLAM Night




POÉSIE & LINGERIE / Inês Jacques, Cláudia Efe, Carla Bolito, Edgar Alberto e


Poetry SLAM Night
à nota "POETRY SLAM NIGHT / Sessão II / Sexta feira 15 de Outubro"


Um poema é um corpo. E a lingerie é o manto de sensualidade que Inês Jacques, Claudia Efe e Carla Bolito vão levar à boca e às urnas, levar a poesia a sufrágio do queixo do povo. É um jogo erótico: temos em mão – mais em olho do que em mão, é certo – um espectáculo de contornos curvos e sedução sibilina. As três intérpretes propõem colocar em relevo, por uma noite que seja – na esperança de frutos, filhos, seguimento no sangue e no peito, o erotismo que é tão intrínseco à poesia, à fastidiosa aparente dos livros, plena de perfume, olhar e carne. A sedução é uma arte, uma arma, e o que aqui está é uma célula revolucionária com um belicismo muito próprio: olhos no lugar de canhões, palavras no lugar de morteiros, explosões em compasso, violência em libido. Um jogo de anca com par, mas em trio. Há sonhos luminosos que começam assim.

Chupa-me neste abrolho

Chupa-me neste abrolho
Onde o mar abre os braços
Em gritos de céu aos pedaços
E coxas nuas em comunhão
De pólen e espuma salgada
Desflora com fogo a espada
E rasga-me num luar maduro
Num rio de lábios profundos
Por entre o respirar dos gomos
Espreme o sumo nesta laranja
Lambe-me estrelas com o pénis
E deixa-me vir numa nuvem
A desfazer-se em leite-creme
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Bicadas de pássaro tão boas!
Fode-me caralho – fode-me!
Escuta o cintilar das águas
Por entre tentáculos de polvos
Odiferos sons dos meus corais
Soca-me caralho sou tuaaaaaaaaa
Ahhhhhhhhhhh, vou gozaaaaaaaaaa!
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
E a língua rastejou na seda branca!!!
E a Flor adormeceu nos ais da carne.

manuel feliciano

POETRY SLAM NIGHT / sessão II /amanhã 15 OUT, ENTRADA LIVRE.





POETRY SLAM NIGHT / sessão II /amanhã 15 OUT, ENTRADA LIVRE. Os concorrentes inscritos são: Samantar Mohi
/ Mário Abel Costa
/ João Silva
/ Manuel Feliciano
/ Afonso Mata /
Boris Nunes. O vencedor ganha uma colecção de livros gentilmente oferecidos pela QUETZAL EDITORES e pela editora 101 NOITES, bem como um prémio MUSICBOX!! Inscrevam-se para as próximas sessões!!

POÉSIE & LINGERIE / 15 OUT 23h @ Musicbox / Entreabre-se




Com as nossas queridas artistas: Da esquerda para direita; Actriz Carla Bolito, Vocalista Cláudia Ef, coreógrafa Inês Jacques.


POÉSIE & LINGERIE / 15 OUT 23h @ Musicbox / Entreabre-se
a boca
na saliva da
rosa

no raso da
fenda
na fissura das
pernas

Entreabre-se a
rosa
na boca que
descerra
no topo do
corpo
a rosa
entreaberta

E prolonga-se a
haste
a língua na
fissura
na boca da rosa
na caverna das
pernas

que aí se
entre-curva
se afunda
se perde

se entreabre a
rosa
entre a boca
das pétalas / Maria Teresa Horta

A bomba

A bomba não se auto-faz
É castrada e marioneta
De farrapos
É escrava
E não dona
Não tem bunda
Nem desbunda
Só rebenta
Nem sentimentos tem
Nem consciência
Não ri da pobreza alheia
Nem chora da desgraça
Não mama
Não toma café
É vagabunda
Não trabalha
Não tem sexo
Não ama
Nem desama
Não idealiza
Nem sonha
Nem pensa
Nem se interessa por ninguém
Só rebenta (PUMmmmmmmmmm)
Como não pensa
A bomba não existe
Não tem lábios de Vênus
Nem suco gástrico
Não se penteia
Nem faz manicure
Não ingere nem digere
É cadáver como tantos outros
Lambendo o pó imundo
Dos desafectos
Das árvores sem folhas
Com ramos eléctricos
Que não abraçam
Nem deslaçam
É túmulo caíado
Flores murchas sem paixão
Num mar sem ondas
Que bate nas rochas das bocas
Marulham na garganta
E Rebenta no coração (PUMmmmmmmmmm)
A bomba tão amada
Que é pássaro de pedra
És tu e sou eu [...]


manuel feliciano

10.17.2010

Sabem o que eu valho?

Sabem o que eu valho?
Uma moeda de 20 escudos
Que perdi num bolso
Uma gravata atada ao pescoço
[Esgana-me]
Mãos de sereias e coxas lívidas
[Torturam-me]
A impressão que aquela loira
Sentada a ler um livro no jardim
Poderia ser minha
[Eleva-me]
É o que eu valho
Um ser demodé
[Pouco me importa]
Ou um very important people
[Deixo para a natureza]
Aos olhos de outro
E eu e a consciência das coisas
E as coisas para mim
E eu para as coisas?
Uma árvore plantada no jardim por engano
O alcatrão passou a ser mais belo
Que uma mulher
A erguer-se no orvalho de uma flor
[Enlouquece-me]
Óhhhh, eu que pensava que só
As mulheres gordas sofriam de desamores
As loiras esguias também as vejo
A chorar à varanda
E as minhas pernas desgraçadas?
Deixo-as no Cais do Sodré
Para aqueles que as têm e não as usam
E afinal o que são os olhos meu amor?
- Duas moedas oxidadas
Vêem o que existe
E vêem o que não existe
Ou melhor não vêem nada!
Por que não é com os olhos que se vê meu amor!
Eu que vi agora duas putas tão bonitas na travessa
Com o coração afogado no Tejo
[Dói-me]
Quem lhes envenenou o amor?
Quem lhes desmereceu o beijo?
Ao tic-tac de um relógio
Sobra-me este dia a dia cheio de mim
Acham pouco?
Num vai e vem de comboios e gente a correr-me!


Poeta manuel feliciano

10.14.2010

Em abandono

Meu amor. Digo-te deserto como um beijo
Despido sem segredos na árvore do Outono
Está na hora de sermos, como quem se abandona
E nasce inteiramente para as coisas
Como pássaros bordados de saliva nos ombros
Folhas rosadas na brisa da pele
Pés nas conchas da areia
Silêncio húmido dos peixes
A voz gretada nas rochas
A rouquidão na vaga das pernas
Espasmos nas colinas com oferendas aos deuses
Sementes no texto das ervas sempre a cada abraço.


manuel feliciano

Em Lisboa

No dia 15 de Outubro de 2010, estarei no concurso, Music Box (Poetry Slam) em Lisboa. Travessa do Carvalho nº 24 ao Cais do Sodré , Lisboa., por volta das 22 horas.




manuel feliciano

10.13.2010

Valsa das flores

E neste sono profundo da vida […]
Enquanto a terra abre a carne à semente
E a chuva amadurece a flor
Eu espero o dia loucamente
Mais à frente sem lonjura
Sonhando com os braços quentes do dia
Como quem morre para a morte
E acorda para a vida
Enleio as minhas mãos nas tuas
Na convulsão dos deuses sem precipícios
Desposando as gargalhadas do sol.


manuel feliciano

10.12.2010

No areal da memória

No areal da memória
Não ficaram as tuas pegadas
Nem o sobejo salgado das ondas
Palavras sem hastes e folhas
Nem as sombras húmidas dos corpos
No areal da memória
Os nossos braços erguem-se de vida
Os corações esvoaçam nas gaivotas
Tu e eu quebramos o vidro do tempo
E no areal da memória
Só ficam aqueles que morrem
A nossa boca chama sempre o sol
Deixemos as lembranças para o mar
E a saudade para os que não amam
E para os que nunca chegaram a ser
Nós estamos aqui felizes da vida
O meu amor incendeia todos os silêncios.

manuel feliciano

10.10.2010

Aos teus olhos

Que me importa que os teus olhos
Sejam ruas desertas
Jardim sem árvores e pássaros
Homens sem consciência
Poeira da cinza de cigarros
No final de uma conversa
Prisioneiros da vaidade
Loucos impérios cegos
Estações sem passageiros
Que me importa que os teus olhos
Tenham a escuridão da noite
Chuva que não escreve na terra
Invernos com folhas na rama
Flores da imunda soberba
Se os meus olhos vêem por ti.



manuel feliciano

10.08.2010

Não me peças o regresso

Meu amor, não me peças o regresso
Nem os braços no mar
Nem o tronco nas andorinhas
Nem os lábios no teu colo
Por que me és tudo isto.
Eu vivo-te como um ciclo sem tempo
Nos poros da tua alma
Acaso alguma árvore vive sem raízes?
Eu nunca te parti
Mesmo quando os terramotos
Teimaram em destroçar as vozes
E apagar a memória
Eu tive sempre a liquidez
Para te ser sem quaisquer muros
Atravessar-te todas as portas
Mesmo estando fechadas
E dar-me todo em aconchego.


manuel feliciano

Um não cheio de vida

Meu Amor
Um não dos teus lábios
É um céu azul aveludado
Uma árvore no oceano
Uma nuvem desfazendo-se
Numa bailarina na garganta
Um arco-íris entre os dois
É um corpo erguendo-se da pedra
Laranja colhida nas telhas
O sol chovendo-me beijos
Meu amor
Um não dos teus lábios
Ainda que tenha sombras
E penhascos desabitados
Sabe-me a sim
Em asas de andorinhas.



manuel feliciano

10.07.2010

Ciclo da vida

Na Primavera há flores que morrem
No verão a água nasce nas folhas secas
Mas não sei para que lugares correm
No Outono colho frutos que não como
De Inverno o gelo queima, mas derrete-se
No teu rosto é onde tenho todas as coisas
Seguras e sinceras, que me mostra a casa
Secreta e imune a todas as tempestades.


manuel feliciano

10.06.2010

Eternamente

Uma orquídea de sol cruzou-te a boca
E nenhum Outono ousou levar-te a voz
Nem sequer o vento te enrugou a alma
Nem o gelo fendeu a luz do teu rosto
Voaste em ave eterna ao cair da folha
E devolveste os ramos ao amor sedento
A chuva é-te flor nas sílabas do rosto
Que eu colho na placenta azul do céu.

Poeta Manuel Feliciano

Cosmos

Atenta à Primavera a latejar na boca das flores
Ao baile das abelhas nos cálices das cúpulas
À nuvem branca a despir o sol com ternura
Ao luar da pele a abrir a semente no escuro
Aos olhos cintilantes na nascente do colo
Aos espasmos da brisa a acariciar os lábios
Ao marulhar das vozes no silêncio do útero
Atenta aos corais na abstracção da memória
Desmorona-te suavemente, cai e varre o pó
Suspira aliviada e casa-te com o mistério da vida
A dor só é uma gota no mar de toda a perfeição.


manuel feliciano

10.05.2010

Portugal em lágrimas

Sou irmão de um povo doente à beira-mar
De uma consciência com vielas intransitáveis
Pensamentos à janela que caem de velhos.
Ó bocas submersas no útero de um lago sujo
Que não conheceis a liberdade pura da palavra
Húmida e sincera a cheirar a romãs e campo
Que nasce nos montes e a morre nos corações
Temeis a casa Pátria seca e não menstruada.
Submissos que lavrais no cio de línguas estéreis
Como cães vadios desesperados pelas sobras
Mijai nos pés de quem vos nega o suor da carne
Soprai alto no jardim frio com árvores graníticas
Que vos fizeram às raízes, húmus, e ao grito?
Desprendei a música que dorme nos túmulos
Para que em vós nasça um Portugal por inteiro.

manuel feliciano

10.04.2010

Viagem imóvel

Na cama imóvel do quarto
Nas sombras da noite
Com lençóis de espuma
À luz de um candeeiro.

Sou um navio no mar
Viajo entre as paredes
E a janela ao fundo
Corpo estendido sem lastro
Entre o tédio e a loucura.

Enrolo-me no vento
E subo pelas nuvens
Sigo pela esteira firme
Do teu vestido azul
Longe dos invernos
E dos dentes da chuva
A ranger nos ossos da proa.

Lavo a minha alma
Nos rastros dos cabelos
Que ouço na voz húmida
Do amanhecer das pálpebras
Estrangulo a aritmética
E o mundo racional
Com árvores nos dedos.

Abrigo-me no teu útero
E brinco com as mãos
Discretas e invisíveis
para que não acordes.

Beijo-te os pés na brisa
Por que as leis naturais da vida
Quebram-me todos os laços
E eu fico-te sempre nas asas.

Semeio-te tudo o que tenho
Somente com as faces da cara
Para não cansar os lábios
Os campos, as flores, e os ninhos
Que o céu conhece mais que eu.

Não mais que uma azeitona
Que chora num lagar de azeite
Para se oferendar em louvor
Ao amor que eu sinto por ti.




manuel feliciano

10.03.2010

Metamorfose

Escrevo-te palavras de amor nos olhos
Respiro-te em trémulas narinas
E deixo-me cair no dorso da tua terra macia
Sobre o sussurrar de folhagens
E fundo-me em magma e rio
Em pássaros labiais ardendo à chuva
Em auréolas estelares em rebento
Em torno de líquidos moinhos
No âmbar do colo até à foz
As mãos são carvão em fogo vivo
Buscando-te uma fenda no escuro
Luminoso e quente
E nos músculos das cordas da lira
Com sons desconexos nas virilhas
Que escorrem nos troncos das coxas
As almas e evolam-se em névoas
O coração ferve e descarrila
Num comboio gemendo em túneis
Com combustível de romãs
Que abre e rasga
Que morde e abocanha
Que come e não magoa
Que mata e ressuscita
Em plena metamorfose vou
Na popa do pénis pela desembocadura
Velas içadas de desejos
De dois marinheiros por trovoadas
Com faíscas de mel e sal
Eu quero-te árvore a florescer de Inverno
Abelha de saliva Polinizando-me mar adentro.



manuel feliciano

Caros leitores do meu blogue

Gostaria de lhes transmitir que sinto um enorme prazer em ser lido, todavia, para algumas pessoas que ousam de má fé, queria referir que os poemas estão registados na Sociedade Portuguesa de Autores.

Esperança

A esperança é uma mulher
De cabelos longos
Nasce menina nas pálpebras
Das folhas molhadas
É um farol
De luz na pedra dura
E um navio
Feito do silêncio dos dedos
Basculhando a escuridão.
É ir pelo mar das dores
Plantar macieiras no azul
Dançar um tango num rio
Que corre seco às gargalhadas
Matar a sede no Sahara
A brasa a luzir na boca da chuva.
Comer a maçã que não vingou
É uma mulher de seios fartos
A flor em devaneios
Que ousa nascer nas ancas do gelo
E nunca lhe nasce sequer uma ruga.


manuel feliciano

10.02.2010

Rasguei uma nesga na noite molhada

Rasguei uma nesga na noite molhada
Com dores de um parto
Por entre raios vermelhos de sol
E o inverno a sangrar-me
No corpo e na alma
Enquanto as abelhas
Me polinizavam o sorriso
E a Primavera me acenava sem flores
Gritei toda a minha loucura
Às larvas
E à traça
Onde me deixaram passos na areia
E uma casa sem luz
Que corroem os sonhos
Não fiquei à janela a ver o sol
Quebrei os muros
Com as lágrimas nos dedos
Desbravei o impossível
Florestas de abismos com machados de luz
Com os ossos desfeitos
Mandei foder o diabo
E a puta da sorte
E segui mesmo em frente num barco de gelo
Com a proa quebrada
Pelas ondas do mar aluídas
Na imperfeita paisagem
Em jardins de sangue
Redemoinhos de seios
Fogos que ardem apagados
Desamarrei os braços cortados
E levantei-os ao céu
E cantei o que não tinha
Com os bolsos cheios de pedras e sorrisos
Colhi bem alto no colo de árvores em névoas.



manuel feliciano

10.01.2010

Leva-me dentro de um bolso

Desmancha o calor dos teus braços suavemente.
E desata o nó da minha garganta
Como quem a aperta
Na malha fresca da tua pele
Sou-te o colo azul do mar sedento
Uma pedra de gelo mais quente
Que o fogo do próprio sol
E nada em mim está congelado.
Como cascatas de árvores
Veste-me com a memória das sombras
Mais brilhantes que o clarão da lua
Que eu não quero roupa que me arrefeça
Colhe-me numa estrela
No velejar dos teus olhos
Com lágrimas abrirem-se em flor
Leva-me dentro de um bolso
Como um objecto perdido
Que eu não conheço outro céu.


manuel feliciano