11.30.2012

Amor é estar longe à tua beira
É comer-te maçã sem te trincar
A carne chorando-te de inteira
E aos meus lábios tu dares saciar

Amor é uma árvore a crescer
O perfume dos teus seios a florir
É não saber quem és e te conhecer
E beber da tua chuva a sorrir

Amor é o teu abraço que ainda fica
No meus braços o amor todo por dar
E a minha boca faminta por ti cega

Amor é a minha mão no chão caída
E ao teu canto é flor na primavera
Que colhes com os teus olhos ao passar!

manuel feliciano
Deixa que ainda não é hora…
Só falta nossa pele ardendo junta
Só falta nossa humidade misturada
Só falta nosso corpo sentir-se céu
Só falta que o desejo vire bruma
Que destroços de navios dêem à costa
Que na garganta haja um tremor de terra
Que uma flor se erga em tua boca
Que a tua lava ardente nos mate
Para sairmos de nós mesmos como luz
Por entre as cinzas que no final deixarmos!

manuel feliciano

11.29.2012

Por ti o meu olhar mesmo que triste
É o teu sorriso maduro num arrozal
Meu frio pomar florido quando partiste
Onda de mar que te desce ao areal

Por ti a minha escravidão é passarinho
O teu silêncio é pêssego que amadurece
Minha tortura é os teus braços com carinho
Que pousam no meu corpo que amanhece

Por ti a noite escura é os teus lábios
O teu suor a correnteza da alegria
Onde a minha boca te bebe embriagada

Por ti a tua ausência é voz macia
Perfume da tua mão a frutos ácidos
Que cai sobre o meu corpo desamparada!


manuel feliciano

11.28.2012

Tu sabes que eu sou um ser inacabado meu amor

E ao teu beijo eu sou outro mundo

Que ar tão puro a molhar a areia

Que crianças com caras saudáveis!

Eu deixo de ser só sonho

...Que beijo tão de abelha a pousar na flor

Eu desço-te com os meus lábios

A saber às tuas palavras e pele até ao teu início

A saliva movimenta-se

Os olhos abrem-se como uma roseira sem espinhos

As camas quebram-se

Os hospitais são comidos pelas eras dos nossos dedos

As cadeiras de madeira entram nas árvores

Os nossos braços gemem de ternura e

Cicatrizam a boca a desfazer-se de madura

Que mundo tão real

Como a minha boca chora de amor: Dói de amor

O meu barco ao teu impulso

Como uma brisa limpa de açucenas

A cada grito que se esvai entre os meus lábios e os teus

Semeia-se uma seara na mão de uma criança

O rio abunda e as águas não nos levam

Ouço o teu mar a bater na minha boca. Bebo-te

E os ramos sempre a florir.

manuel feliciano

11.27.2012

Hoje venho anunciar o fim do mundo

Ao olhar quente

Dos meus olhos dentros dos teus

Na brevidade da flores

Colhidas nos teus seios

Pelas minhas mãos

Mãos que entendo e não entendo

Oh céu limpo dos que voltam

Como são felizes os rostos tomando os verdadeiros rostos

As folhas o verdadeiro lugar

Dois velhos à varanda voltando a ser crianças

Há flores a nascer dentros dos pássaros
E pássaros a nascer dentro de nós

Depois as folhas recuperam os sentidos

Nas saliva tremendo na boca

Agora sigo perfeitamente para frente

Canto-te com os meus lábios a roçar as nuvens

Que verdade absoluta

Que feridas tão caladas

Que suspiro de alegria de um cais onde só parto

Do morno do teu pescoço

Agora sei que parto e só fico na infinitude dos teus cabelos

Aperto-te mais que os braços da terra contra mim

E eis o além: O milagre de te amar.

manuel feliciano

11.26.2012

Perdi-te como uma árvore
A sangrar as folhas cheias de ternura

Mas sei que te levo comigo
Para outro lugar. Sei que te amo mais agora
A tua saliva corre nos meus olhos

Há pássaros neste meu choro
E tu és o meu ninho. Sou feliz por te amar.

Ao frio dos teus pés. O meu coração aquece.

Manuel Feliciano

11.24.2012

Morde-me o chão de corpos calcinados
De punhos que sangram na garganta
Das pedras em sono
Sinto a estação de todos os homens
Na viagem do tempo
E pinto a pulsação
Das horas nos lábios vermelhos
Do pó onde escuto as vozes em silêncio
É preciso que as pedras pairem
E as crianças nasçam
Doem-me as árvores, as flores, os muros
Os beijos!
Porque sou ponte feita de silêncio em chama
A refazer esses corpos
Que moram neste chão, nestas árvores!


Manuel Feliciano

Folhas

Pensas que as folhas caem?

As folhas voam
E estão sempre no mesmo lugar
Como a ti que te amo

Dos cabelos
Aos braços

A tua boca vermelha
É o único chão que provo
Depois de tudo

É mais flor
É mais dia

Como duas mãos que não te agarram

Pela ternura dos ramos

Folha a abrir-se-me no beijo

As folhas não dormem nem morrem

É só assim que te sei.

Manuel Feliciano

11.19.2012

Mulher



Mulher tu nasceste
e trouxeste contigo o jardim
Perdido
A ave semeada na boca
O mar a transbordar nos braços
O escuro
O escuro não o trouxeste
Mãe
Amor
Pedra de água que sabe a colo
E a açucena

Ah como dói o sol
E as nuvens nas tuas mãos frescas
Que amparam a rama
Cheia de uvas
Pelos arames dos meus olhos extensos
Em fileiras
Em fileiras
As fileiras são sempre as mesmas
Os teus braços compridos
A minha face vazia
Na planura dos teus dentes
E boca
E o mar sempre à volta
E os barcos amor
Os barcos que não chegam a encostar
Nestes olhos rasos
À vela do teu hálito!

Eu não quero beber-te amor, nunca!
Nem as paisagens
O mundo resume-se a ti
Tu vieste para ficar[...]
Tu és o mundo e a escuridão
Que nada pode contra a tua carne fresca!
Porque Tu és a mãe
E o fogo
Que gera o lugar...
Leva-me ao teu colo que eu quero adormecer
Pelas margens dos teus seios
De trigo quente e dourado
E os pássaros partindo e voltando!


Manuel Feliciano

11.17.2012

A minha mão vazia



Meu amor, Vou dar-te o mais sagrado que tenho
Uma mão vazia
Porém a minha mão vazia
Tem rosas em sangue
Noites feitas de andorinhas
Manhãs bordadas em cristais
E berços onde as crianças são estrelas.
Meu amor, Ainda tens a possibilidade
Dentro da minha mão vazia
Que ela seja pássaro desatando-te nós
Filtro de sal nas tuas lágrimas
O azul suave que te aconchega
Uma flor em pleno nada
A minha mão vazia é uma quantidade de coisas
A Primavera renovada
Na vereda que ardeu...
Uma semente na língua
Escarpando a escuridão
Sente com força a minha mão vazia
Dou-ta e faz dela o que quiseres.



manuel feliciano

Ausência


E quando não te tenho também te tenho
a tua ausência escorre-me em fetos nos olhos
E não te ter é ter-te duas vezes
E quando não te tenho é amor
Porque as coisas existem dentro e fora
Porque as coisas existem mesmo sem boca
E a brisa tem a propulsão do teu corpo
E o mar o eco do teu olhar
As minhas mãos são duas árvores cheias de ti
E as minhas lágrimas são palavras que te chamam
O teu silêncio tem a forma dos teus lábios
Até as águas nos sentem
Até as aves nos cantam
porque quando não te tenho também te tenho
Como a chuva a rasgar as pedras
Como o rio ao encontrar o mar.



manuel feliciano

Jardim desencontrado


Na adolescência eu tive um grande amor
Que vinha comprar rebuçados para nos olharmos
E pelo caminho apanhava figos e não tinha fome
Cortava uvas e não tinha sede
Como uma forma de nos acariciarmos
E porque a voz nos falhava
Quando queríamos dizer amor
As uvas e os figos eram os beijos e as palavras
Que trocamos sem querer
Hoje eu lembro como quem te reencontra
Na loucura de um verão quente
Com as pálpebras bêbedas de sede
A milésimos de cortar a meta
Provei os beijos todos que não demos
e concordo que um grande amor será sempre
Um jardim desencontrado!



manuel feliciano

Mãe

Quando quiseres dizer que me amas: diz mãe

E o coração saber-te-á por inteiro





Não me abraces: diz amor amor em gestação

Depois acaricia o feto e alegra-te

Como uma flor transformada

Com a voz dentro de outra voz.





Não me beijes: Sente a tua barriga em lume

A iluminar-te sem peso

Com o teu corpo vergado

E um pouco mais de ti a estender-se

E o teu eu em outro eu.



E se por ventura chorares

É porque às vezes o choro é uma forma de sorrir profunda

E o amor é um filho dentro da boca

E o umbigo é o rio que nos enlaça



Quando quiseres dizer que me amas: diz mãe

Mas não te esqueças com o mar nos lábios

Porque o amor dói como o sol em carne

O amor é morrer para ser outro.





manuel feliciano

Os teus seios

Os teus seios, ai os teus seios

Redondos como a alma humana

Silenciosos da cor dos gemidos

beijo de mar nos olhos

Curvos com toda a extensão

Escrevem nas lascas dos lábios

A mudez a arder de gozo

E enquanto morro é vale vivo

E enquanto vivo procuro o vale

E as palavras curvas

E os beijos curvos

Que voltam ao mesmo ponto

Ao mesmo olhar

Feito de coxas macias

Qual timbre da chuva na cara

Qual sol a beliscar o arvoredo

É quando a terra deixa de existir

Nos teus seios de ardósia e uvas!



manuel feliciano

Verão quente



Quero-te mais que a pele do teu corpo

Que o céu quer às estrelas

E é só isso que quero que seja a morte

Sono dinâmico do beijo

O meu amor extremo de outro corpo!


Ah se soubesses como te amar

É ter todos os caminhos sem caminhos

É não conhecer mais o fim

Só o das palavras

Que se alongam

Em raízes de barcos

E não mais se desfazem





Em faces na chuva



Ah se soubesses como tu e eu

Somos o céu

E o que fica para além

Que arranhas com as unhas
Ainda todas por sentir

Sempre por sentir

E já se sentem

Bordadas ao pescoço

Como é belo este assombro

De corda de violão que se estica
Do bico à asa
Do céu ao bico
Neste verão escorrendo em primavera
Com uvas doces cheias do teu grito.



manuel Feliciano

À minha Pátria

Só Tu és a minha terra
O meu idioma.
Eu não sei de que terra sou
Que idioma falo
Quando te beijo – amor
Levanto a neblina
Solto os rios adormecidos
De nuvem sobre os braços

Deito a minha cabeça contra os teus ombros
Bebo luas de trigo nos teus cabelos
Que os meus dedos desfolham
Semeio sêmola de barco nos teus lábios

Sonho o mar que soluça
Na tua garganta – entre duas falésias
E desancoro o túmulo ardente dos pinheiros
A voz molhada de caranguejos e duna

No meu olhar perdido e soberano
Acho-te
vestida de abraços e beijos
Ao clarear da aurora
Desovam-me flores e equinócios de pássaros

Neste país despido
como uma árvore de Inverno
Tu dás todas as flores
Neste bravio de pedra
Que o sol molha nos corais da boca
Tu ainda és o céu
Da minha terra e idioma
O meu amor. A minha Causa.

Manuel Feliciano


Dá-me a mão
e vem comigo

Não há água que molhe o fogo. Nem fogo
Que perfure a água.

Não temas

Bem sei que os teus cabelos
campa desarrumada
Onde me sepulto contigo
São videiras a arder de frio
No vale seco dos meus lábios

Ouço-te muito mais à frente
Do florescer ao rebento
E todo eu no teu útero
Ardemos e não ardemos
Morremos e não morremos

Não temas

És terra de uma outra terra
Céu de um outro céu

Porque o meu corpo e o teu corpo
Palavras em gestação
São bocas por ordenhar
São as que temos e não temos

Dá-me a mão
E vem comigo
Colher com amor as uvas

Não há água que molhe o fogo. Nem fogo
Que perfure a água.

manuel feliciano

Pensas que me podes negar o amor?

Pensas que me podes negar o amor?
Pensarás tu que é um olhar que o justifica
Um pássaro de fogo na garganta

Ah se o amor fosse
Tu quereres ou não quereres
Também o sol não dobraria o escuro
Nem a neve perdoaria ao sol
De a lamber tão de mansinho

Porque enquanto queres e não queres
Eu beijo-te loucamente
Como o luar as uvas
E não me condeno

Porque o amor inunda-me
Dos arrozais dos teus seios
Sem que os canais dos teu braços me reguem

Ah quantas vezes os beijos
Os abraços
E as palavras
São céus que não chegam a ser céus
E mares despidos do azul das línguas

Ah tudo o que te quero falar é amor
Planta que não conhece a terra
Sempre maravilhosamente só
Com todas as estrelas gemendo
Em nossas bocas tão juntas



E porque não tenho carne
Revisto-me da tua carne e não espero
Enquanto os meus olhos vazios são os teus cabelos


manuel Feliciano

Adão e Eva

Não me digas nada
Quero-te
Jardim despido
Flor
Infecundada
Lábio por lábio
E mãos incriadas


Desvive-me
De pó e Eva
E maçã trincada
Dos joelhos
À boca
Em fios de saliva
E pássaros
De língua

Entre o céu salgado
Sem estrelas
Na minha garganta

Não te prometo Deus

Porque os meus olhos
Não sólidos
Não sabem a maçã
De árvore
Errada
E Sóbria
Da qual me desveneno

Senão aos teus pés
Chão do paraíso!



manuel Feliciano

Tudo o que não fui

Manuel Feliciano – Poeta português contemporâneo e universal

Tudo o que não fui
Eu também fui e sou

Quantas vezes estive perto e não cheguei
A essa flor que tanto me doeu
E porque me doeu
Soube-me à tua boca e sangue
Dentro de tudo o que já secou

E porque secou
Amo-te
Vives-me
E não morreu

Porque sou feito da morte das ervas
De olhos abertos
Nas mãos do mar
E peixes
Que reluzem na escuridão do céu.

De tudo o que faltou
tu és a própria voz
Dentro da minha voz
cheio de gramíneas
que os pássaros tanto querem
e um ninho no coração

E tudo o que não fui
Eu também fui e serei
Criança a abrir a porta do vento
No seio de sua mãe.

Manuel Feliciano

Outono



Nasce-me neste Outono – amor
Deixei de acreditar na primavera
Tenho a boca cheia de febre
Na língua – sobrado do quarto cheio de uvas

Os teus queridos dedos lua morna
Na cabeleira do mar pelo colo
São pregos de carpinteiros entre os beijos
O sol na rima da saliva a naufragar
Eu bem te peço socorro
Mas tu não me ouves
O teu não ouvir é um monte claro

Onde sobejam giestas
E um ninho de palha
No pó da garganta
Um rio no umbigo
Do mar para a montanha

Colho-te maduras peras
Fecho os olhos e morro
Mergulho no precipício
Os teus braços são fundos
Contra as víboras das células – as tuas pernas

Ah as tuas pernas
Sacodem o pó
Desarrumam eixos e a direcção do lume
Porque não são pó
São os meus olhos
Brisa de âmbar sem ferrugem
Geografia inexistente
Na doçura dos dentes


As nuvens estão altas
O coração e a boca. E morrer é mais do que querer
Luz a transbordar o palato

Os dias não chegam. Os dias não bastam
E as flores eclodem para dentro do escuro
É Outono pleno de loucura
Nas minhas unhas reluzem as tuas coxas

E tu nasces-me, tu nasces-me
Tu não sabes morrer
É frio. As tuas mãos queimam-me
Na ininterrupta aurora
A folhagem dos seios remexida pelos melros
É o mar e as árvores que não se lêem

Depois do fim: Cheiro-te a pele- Estou vivo!

manuel Feliciano

Jesus Cristo


Porque te deixaram morrer?

Na voz abrindo-se na folhagem das pedras

As palavras nos ouvidos dourados das areias

O coração sempre do mesmo lado

O pregos no lugar dos dedos

As andorinhas piando na boca

O amor - mãe em carne viva

o meu coração não tem lugar para o teu fim

Pensas que faço uma vénia à múmia do mundo?


Clamo-te - E não te ouço

Num sorriso edificado

As tuas pernas sem mais mar

Uma árvore despida - Barco do teu dorso

Sem as moedas de César

Só espada que nada sabe da ternura

Os lábios que tudo sabem sobre a espada

Que Deus é esse que te mata de amor?


peco
Como eu peco meu Deus
no mais sujo de mim
há uma flor branca
E os teus pés para eu chorar
E cabelos de Madalena
doendo-me no pescoço


Nenhum Deus merece a tua morte

nem a tua palavra

nem o teu rosto

Só amoras nessa ferida tão tenra

na crusta dos olhos

Só os teus pés cansados da terra

A aliviarem-me - os lábios da ceia

de Crianças em eiras de milho

Dobando o mar em corações de papoilas

No beiral dos pássaros

uma árvore à espera da porta da tua mão

Que entre por esta boca tão pouca!


manuel Feliciano

Aos teus pés


PÉS


Sabes que mais

Os teus pés são a minha aldeia florida

Sei que a mémoria desagua nas pedras e nos troncos

E tu tens que estar

Dentro das pedras e dos troncos

Aqui a espera cansa mas não traz a morte

Porque a morte é trazer-te sempre viva

A morte é só quando um homem quer olhá-la de frente

Que me interessa que os rios desaguem nas estrelas

E tu estejas na altura das estrelas

Que me interessa que o mar seja feito desses troncos



Se tu e eu somos feitos disto tudo

A minha aldeia não tem mar

A minha aldeia não tem barcos

Só pedras e árvores floridas

Só silvados cheios de amoras

Na minha voz à margem de um caminho

È sempre um dia a começar à tua procura

Com a certeza que os teus pés são os meus olhos

Com a certeza que os teus pés são a minha alma.



manuel Feliciano

Os olhos da margarida

Nos olhos de margarida
Como uma espada lançada
À Sombra que o sol semeia
Há rios de inocência. A carne é de outro verão
No cimo das folhas
De amarelos pêssegos.

O mar tem outro Sal
que a boca puxa
Nas mãos de areia
As palavras
em cada grão
Na memória do corpo
O Sol chama a montanha
E em ti gera-se o príncipio

A tua pele reveste-me
Com a branca neve que cai
No pólen que a minha garganta atravessa
Num pássaro de névoa
Do barco para a árvore
Da água para a nascente
Vale a pena morrer nos teus olhos margarida.

Manuel Feliciano

Carnaval

Por que me fechas os olhos
Enquanto o carnaval passa?
Há tantas ervas moleirinhas
Quando me fechas os olhos
Há moças que abrem todas as paredes

O teu fechar dos olhos
Faz-me cócegas no coração
E as minhas pálpebras
Puti-abertas e cósmicas
Deixam-se semear

Uma luz sideral
De folhas vermelhas
Menstrua-me
Nas matizes do teu campo
Os candeeiros rompem-se

Oh misteriosa luz solar
De clareiras de seios
No fundo da minha covardia
Desfaz-se um fluido de cristal

E de cada vez que não me olhas
Cheira-me a lenha e a forno
Baptizando os meus lábios

Eu ceio do teu vinho
Eu ceio do teu pão
E a agua morre-me na luz da tua boca

Coloco nos meus dedos os aneis do teu olhar
Sobre um fevereiro florido
Para que te vestes de morte?

Um olhar teu
Maior que a dimensão solar
Alaga-me
Dos teus corais
E piamos
Piamos como corvos
No teclado das asas

Tu és uma laje nua…
Da cor da amendoeira
Com que gozamos de orgasmos
E os Deuses dentro de nós

Agora eu sei. Tu fechas os olhos para me aqueceres.
Para sentires o cimo do mar enrolado nas tuas nuvens.
O odorante incenso nas tépidas costas!

Manuel Feliciano
As cerejeiras onde vivo
Estão alagadas de flor
Porque morreram de frio
De sorriso a transbordar no rio
Em cada socalco
E pálpebra

Eu não sei do teu grito
Nem do teu Deus
E da chama do teu tronco

Só te sinto
Só te sinto - na lavoura quente
na terra da boca

Ah quantas vezes eu te sinto
Nesse sol que escurece
A tua pele tão branca
O teu sangue que adormece
E em mim sempre acorda

E os teus braços vazios
Varridos de folhas
Colhem o meu deserto
De areias e cactos
De crianças onduladas
vergadas para o céu

Ainda molhado de placenta

Para que quero as palavras mãe?
Se elas não cabem em nenhum lugar
Se elas são feitas de uma noite qualquer
Se todas elas estão mortas
E em mim corre toda a sede
Do perfume do teu seio
Ao cume ofegante das raizes

Senão flor para atravessar o mar
O hálito para dar a vida às folhas secas
E amamentá-las tão verdes
Nos seios e nos olhos
E o mar dentro dos troncos
E os peixes dentro da nossa floresta
Basta-me que ames
Aperta-me a boca amor
Neste Douro Florido
Sem nenhuma palavra como a noite!
Aqui é onde Deus me abre todo o seu útero.

Manuel Feliciano
O que em ti há de mais feio é uma rosa
Em todo o seu aroma de estrela

Os teus olhos fecham-me
E as flores
Bebem o mel nas abelhas

As pálpebras dos lábios abrem-se

Toda a noite é clara
Na lamúria
De um beijo no seio
Ouve-se o mar
Pleno de gaivotas a nascer no sol

Depois as palavras
Feitas de nuvem
Perfumam as nossas bocas

Que sabem aos teus pés
A semear aves nos lábios
E ninhos em toda a floresta

Onde todo o barco morre
Onde todo o barco nasce

É sempre o que me dizes
Quando não me dizes

O teu não dizer
É um poço de água numa mão
Um fio de cabelo
A descair-te para o colo
Alargar-me a boca

E a minha face rosada
Um deserto
Voltada para os teu dedos
Beduínos
Com trilhas e camelos
Na faina da tua voz

E o que em ti há de mais belo é eu saber
Que o que em ti há de mais feio é uma rosa!

Manuel Feliciano
E se eu for. Em aromas de barcos
Pelos teus cabelos ofegantes
E a tua delicada boca. Eu adorar-te-ei sem medo

E se tu. Da terra mais silenciosa
Dos rios adormecidos me disseres:
- Vem por aqui estranhamente. Pelos meus braços
Saliva feita de ponte
O fim do mundo! O mar ausente.
Os lábios transparentes. Nos meus estranhos seios

A tua pele é onde o céu nasce. As ervas se orvalham
O escuro mergulha contra o teu umbigo

No barro que desconhece o corpo: As tuas pernas abrem-se

E o SOL em torno das tuas axilas gira

Na bíblia do teus poros: nos profetas da minha língua

Chove em África e as crianças bebem O Deus Verdadeiro

Não me peças para te adorar só hoje: Tu fazes parte

Da Luz mais secreta do mundo: Aquela que me tem comido a boca

Habitado o sangue! Eu quero ir. Vestido da tua brisa.

Pelo teu absoluto corpo.


Manuel Feliciano

11.15.2012

Nenhum poema mais se atreva
Eu sou livre de todas as palavras
De todos os rostos
Definhando em flor


Ainda que meninas de pernas macias
De rostos brancos
Fintem os olhos
E corem no sangue das romãs
Enquanto as mãos gelam de amor


Nenhum poema mais se atreva
Ao orvalho da minha língua
Ao chão do meu corpo
Enquanto eu não for erva
Folha amarela
Um barco a rebentar na árvore
A morte que tu não trazes e o meu beijo em sangue
O fogo desmanche as flores
E volte à origem da saliva

Nenhum poema mais se atreva
Digo-te aconchegado com as minhas mãos na flor da tua pele
E as oliveiras vergadas, quentes, menstruadas
No hálito dos teus cabelos

E os meus olhos dentro dos teus
É noite, sempre noite

E reacendo


Na minha boca a saber a mar! Incómoda
Um dia a entrar no sol e nas gaivotas
O teu cheiro trespassando as névoas
A gemer em teu caís! Depois de mim.

Manuel Feliciano
Cheira a mosto as tuas mãos
Quando vais embora

E a tua carne meu amor
Pão de tantas horas

E o teu vinho
A minha garganta plantada do teu tronco

De videira florida
De amor que só nasce

Vou ficar a olhar-te
Porque Embora é uma noite que não chega
Cheia de lábios
E olhos
E o coração que arde

E o orvalho são os nossos beijos
Sem cestos carregados de uvas

Oh não tenho carne para o amor
Nem veias onde o tempo corra para o lagar

Só te sei viver sem fim e lonjura

E palavras de um outro mar

Dou-te as mãos. Nenhum velho morre mais
Nas paredes de uma janela.

Manuel Feliciano

Sentado contigo

Ribeiro, corre ainda para trás
Sobe
Lentamente à montanha
Pedra por pedra
O leito é agora que te desço, amor
Os meus pés no teu rio
É cedo muito cedo, amor

Ah nenhuma célula se atreva
Há ternura
Crianças à lareira
Quando o meu olhar sem o teu olhar
Já se sentem
Na minha boca tão fria

O teu tronco pela brisa
Altar ainda tão nú
E as minhas mãos a asseá-lô
A flores tão somente vivas no jardim
Cheias de sede dos pássaros

Morrer é só a beleza
De te dar os meus braços
De cheirar a tua flor
As pétalas já caidas
A refazer os lábios
De uma tarde que não chega
E tudo em flor

As minhas mãos nas tuas
Maçãs que mordemos
E que nos saem da boca
E restam em brasa nos ramos
Rio por inventar na médula dos barcos
O meu rosto ferve

Na saia molhada no mar
O mar
O mar...
Onde está mar?
Que ainda nem existe, amor.

Manuel Feliciano